quinta-feira, 11 de maio de 2017

A pessoa de confiança de Deus

                                                                                                                                                                                       
Deus é perfeito em tudo, mas quando inventou a mãe foi, certamente, por querer receber o amor mais verdadeiro do mundo e saber que este seria o remédio para todos os males.

Mãe é anjo na Terra e não se pode explicar algo tão divino, seja a mãe biológica ou do coração. O que se sabe é que é forte e infinito. Agora, é plenamente possível desfrutar do melhor abraço, dos melhores conselhos, receber de peito aberto o sorriso mais bobo de todos. É recomendável reconhecer o esforço diário de nossas mães; os sacrifícios que estes anjos fazem para que tenhamos uma vida melhor que as suas.

Dormem tarde e madrugam para mais um dia de labuta. Pode acontecer de serem mãe e pai, além de amigo confidente; e como amigo também briga, vez por outra as discussões aparecem. Mas nada que o amor, vestido de um beijo e um pedido de desculpas não resolva. Quantas vezes viram com olhos pidões algo na vitrine, mas logo lembram que o filho precisa de um tênis, uma roupa nova e aquele desejo fica de lado, sem o menor peso. E as madrugadas sem dormir pajeando a febre que talvez voltasse ou ainda por esperar a porta abrir, tarde da noite, e ela voltar a sentir paz no coração, porque, graças a Deus, o filhote chegou bem em casa?!Ah! E apesar de algumas vezes relutarmos, as mães sempre têm razão. Sempre! Sempre! Sempre! É Deus mandando recado! É a pessoa de confiança Dele!

Elas acompanham a tarefinha da escola, preparam o lanche, botam pra dormir com cheiro na testa, preparam o almoço de domingo com os temperos mais aconchegantes, voltam a estudar na fase adulta, quando tudo é bem mais complicado; pedem para um ou outro de sua confiança para ficar com o filho até ela voltar da faculdade já de noitão. Plantam, lidam com a terra, mas não abrem mão de que seus herdeiros tenham o estudo como projeto de vida, ainda que seja para dar continuidade à atividade da mãe no campo.

São fofas, gostosas, delicinhas e cheias de rococós, até mexerem com suas crias. Viram onças indomáveis. Uma loucura sem controle. Ficam cegas. Voam em cima de quem fizer derramar lagriminhas nos rostos de seus bebês, que podem ter 10, 15, 20, 50 anos. Para elas, serão sempre os nenenzinhos de mãe cheirar!

Ser mãe é tudo e muito mais de bom. Todo sacrifício, toda a luta diária, todos os sapos que engole a seco, todas as dores que precisa aguentar, tudo isso é infinitamente menor que a razão que elas têm para ser feliz pelo não simples fato de ter no coração o sentimento de ser mãe. Tudo é por eles e por eles tudo e depois tudo de novo!


FELIZ DIA DAS MÃES!

sábado, 22 de abril de 2017

PELA PAZ MUNDIAL


Manhã e tarde de sábado trabalhando com brilho no olho. Na volta, a chave da porta de casa abriu também espaço para o cansaço. Cá dentro, uma inquietação feito crise de azia. Vira e mexe, não sabia o que estava indo fazer, mas sabia ter de fazer algo, mudar algo, resolver algo. Nadei no seco da cama tentando achar dentro dos lençóis a paz que permitisse um cochilo. Tudo em vão. Peito e mente preenchidos por tanta coisa boa, forte, mas nossa! Que desassossego dá! Azia virou fichinha.

Um compromisso me esperava à noite tarde. Teria gente, bebida, boa música, talvez alguma conversa boa. Minha agitação era tanta que só consegui ficar em casa quase inerte. “Vamos atualizar os filmes, Larissa?”. Sem pestanejar, aceitei meu próprio convite. Primeiro “Fragmentado” e depois, para me fazer voltar a respirar, “Minha mãe é uma peça 2”. Já valeu ter enraizado por hoje.

Agora aqui, escrevendo, ouvindo bem alto aquele Belchior que maltrata, mas é tão bom. Pronto! Me empolguei! Vou falar nele. Minha história com o “rapaz latino americano”, nascido em Sobral (CE), surgiu de trás para frente. Começo de 2016, quando uma trilha de novela das 21h chamou minha atenção. Era Ana Carolina cantando, a até então desconhecida, “Coração Selvagem”.  Já era familiarizada com algumas canções do foragido mais amado do Brasil, mas ainda não era caidinha por sua obra. A descoberta chegou junto a outras sensações quase esquecidas e foi quando tomei para meu bem querer seus maiores sucessos. Belchior me causa coisas. Me faz resgatar episódios. Fico desigual. Me teletransporta e viro uma vitamina com mix de frutas doces e cítricas. O sabor ainda continua gostoso de sentir.


Já madrugada. Hora de embrulhar o que vi e o que senti e pôr para dormir juntinho de mim. Me preparar para ter novos ganhos amanhã e torcer, de dedos cruzados, pela paz mundial do meu coração!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A vida é uma sensação


De que valeria a vida não fossem as sensações? Todas elas. Pegar o vento com a mão fora do carro em movimento, sentir o ar faltar de tanto amor, deslizar em uma banheira de água quente num dia de frio extremo, sorrir de nervoso, câimbra na mandíbula depois do vinho seco. Ver as cores, as flores, as formas. Acariciar devagar a pele de quem se quer. Gravar para sempre o cheiro do cabelo de nossa mãe e dos nossos filhos. Relembrar a textura e o ritmo do beijo tão esperado. Ver o sol nascer cheio de paz e se render ao carinho do frescor matinal. Sentir a felicidade pulsar dentro de si como uma coca-cola quente agitada. Repirar fundo. Não existe nada melhor no mundo que abraçar de corpo todo. Sorrir. Gargalhar até perder a compostura. Ouvir boa música olhando estrelas. Dar aquele gole bem dado da sua bebida preferida depois de um dia de trabalho e preocupação. Dançar desprendidamente. Amar e também se apaixonar. Cantar o mais alto possível. Banhar de chuva.

Mas também falo daquelas sensações doídas. Aquelas que ninguém quer sentir, mas que são parte do preço que pagamos por estarmos vivos aqui, neste mundo tão sensorial. Pode ser uma enxaqueca, uma topada na quina da cama, uma desilusão amorosa, dor nos ossos, ver um amigo sofrer, perder alguém querido, se ver sem saída e mesmo assim ter de continuar, ter de engolir o choro e ainda precisar ensaiar um sorriso, sentir-se impotente, ser impotente. Ver-se frustrado. Um espinho no pé. Vergonha. Timidez. Ter ferida, a autoestima.  Arrependimento. Pegar na panela quente. Ouvir discussão alheia. Susto. Fome. Se ver só,apesar dos trilhões de pessoas que habitam a Terra. Saudade!

Tudo é válido. Tudo de bom e de ruim que sentimos só quer dizer que estamos vivos; e isto é maravilhoso. Por isso, agradeço a toda espécie de sensação que me chegue. Sinto, degusto, toco todas elas. A vida é isso. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

As canções que você fez pra mim


As canções que você fez pra mim

Este álbum adoçou minha vida no momento em que nada mais me arrancaria um mísero meio riso, não fosse Deus mandar magia musicada. Ouvia dia após dia feito remédio de horário certo e resultado duvidoso. Era um tempo confuso, de conflito, onde só a providência divina poderia agir. Para minha felicidade, Ele agiu muito tempo depois, mas agiu. Tirou de mim o imenso peso que começou bem antes daquela Maria Bethânia, mas que uma vez chegada, juntamente com meu Deus, tornou minha vida mais leve, mais feliz e com perdão de coração. Peito aberto e sincero.

Cantava esta Bethânia com força, com fé no meu amor apenas meu. Sei cada acorde de cada canção deste álbum de tanto fazer uso. Me serviu tanto, que apenas eu e Deus sabemos. Fez sarar feridas longas e profundas. Mas, de verdade, nem a duração do erro e nem a intensidade que sofri. Nada importou. Relevante mesmo foi a leveza que passei a desfrutar. Sempre optei por amar livremente, sem pesos, nem amarras. Não sobreviveria com o peito manchado.

Bethânia acompanhou minha transição. Do calvário ao renascimento. Do entendimento à atitude. Talvez, também por isso, ela seja minha maior ídola. Sempre encho os olhos ao vê-la.Tive ciência desta relação entre mim e a filha de dona Canô na noite deste sábado (07.01.2017) depois de umas geladas, sentada na área da frente de minha casa, sempre sob estrelas.

E agora voltei a me emocionar. Depois de 24 anos, entendi o porquê de minha adoração por Maria Bethânia. Os que me conhecem de longa data sabem deste amor, mas só agora, assim como eu, talvez entendam o motivo.

Eternamente grata à Bethânia por ter sido minha analista, minha diva, meu refúgio em uma época onde ninguém conseguia entrar no meu coração, muito menos em minha mente. Ela, com seu dom, foi dorflex, dipirona, buscopan, rivotril e dramin da minha alma.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

É muita papelagem


 
 
Num fim de noite, em frente ao palco do Balcão Show Bar, meu bem Bidoca disse muito entusiasmado: “Vou te apresentar uma amiga minha!As duas vão dar certinho!Você tem que conhecer!”. Eu: “Quem é ela?”.Adivinhem só. Era a minha xará. Minha Papeleira. A amizade mais completa que eu já tive até hoje.
Não tivemos uma amizade de 20 anos. Mas os anos que tivemos juntas foram absurdamente intensos, como aqueles amores que duram um tempo na realidade,mas a eternidade para a vida toda! Quando uma não estava com a outra, a outra estava com a uma; ou fisicamente, ou em pensamento, ou ao telefone. E entre nós não existia uma ponta de malícia. Era amor de “irmãs” que se conheceram na fase “adulta”. As aspas são para explicar que essa coisa de “adultescer” não era pra gente.

A gente andava tão, tão, tão juntas, que uma dia nos disseram que só faltava o “parmegiano”.  A gente sorria, dava de ombro e continuávamos uma sentada ao lado da outra nos divertindo horrores!rs
Juntas fizemos as coisas mais loucas e sem pé, nem cabeça. E entre uma arrumação e outra ela soltava: “É muita papelagem!”.rsrsrs A gente se divertiu muito juntas!Também choramos juntas, às vezes sem saber porquê. Só pra chorar mesmo e parecer que tiramos um peso que nem sabíamos se estava ali!rsrsrs Nos aconselhávamos como se aconselha alguém saído da própria costela.

Ela despertou meu lado maternal. Matheus e Isadora passaram a ocupar um espaço gigantesco em meu coração. Para eles, tudo!Até piquenique à noite nos banquinhos do Santa Marta e guerra de bexiga d’água na quadra do condomínio. E assim como meu amor por ela não passará, por eles idem.
O bom é que sempre me declarei para ela e vice-versa. Há uns dois meses, Laryssa ligou para pedir o telefone de uma professora de espanhol para auxiliar a filha de uma amiga de trabalho. Foi a última vez que nos falamos. O que era para ser breve se estendeu por dezenas de minutos. E o tempo parou para nos abraçarmos à distância. E mais uma vez nos declaramos. Eu: “Papeleira, você sabe que eu te amo,não é?!E que eu nunca tive uma amiga tão “fechada” comigo quanto você.E que eu morro de saudade.Tu sabe,né?!”. Ela: “Ow,menina Lazinha, eu sei.Eu também sinto muito sua falta!Também te amo!Só tu mesmo!É muita papelagem”. E soltou aquela risada tão gostosa e tão dela.

Em oração, mandei um recado para ela. Para que ela siga em paz a nova jornada e que sempre olhe por nós, porque não a verei mais naquele formato de antes, mas sempre vou vê-la dentro das melhores gargalhadas, nos olhares de cumplicidade, nos ombros amigos, em momentos politicamente incorretos e nos corretos também. Eu irei vê-la nas pessoas determinadas, nas mães zelosas, nos abraços mais aconchegantes. Eu sempre vou te ver, minha Papeleira! Obrigada, Deus, por ter colocado a Papeleira em minha vida!Muito de felicidade aprendi com ela!

P.S1.:  Um dia voltando de uma confraternização da CCOM em um sítio, cantarolamos feito loucas a música Velha Infância, em função de um momento apaixonado dela. Desde aquele dia TODAS as vezes que escuto esta música lembro dela cantando sem saber,mas o tanto que sabia gritava aos quatro ventos. Era muita papelagem!rsrs
P.S2: Laryssa significa alegria.........

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Velha infância

Velha Infância


Fomos contemplados com uma das infâncias mais felizes que já tive notícia!

De tudo teve. Muito de nós foi desenvolvido nesta fase.

O lado promoter:Comemoramos o aniversário de nossas bonecas, realizamos festas juninas maravilhosas (com a presença de Ana Lúcia, Joelma e Neto-Transcol), fizemos nossos números de dança nas festinhas de aniversário e de fim de ano, promovemos um desfile no meio da rua com passarela suspensa e tudo. Fechação!

O lado empreendedor: Juntamos nossos cacarecos conservados, gibis, compramos algumas balinhas e colocamos à venda numa mesinha de cabeceira na calçada. Garantíamos a venda de nossos produtos com nossa propaganda e charme!Descobrimos desde cedo o quanto é bom ganhar nosso trocadinho com o nosso trabalho!

O lado competitivo: Chegadas as férias, logo formávamos a gincana dos homens contra as mulheres. Nunca dava certo.rs. A coisa era séria!Mesmo nas provas aquáticas,no BNB Clube, tudo acontecia a ferro e fogo!Tinha também a indispensável corrida de bicicleta, que naquele calçamento “cabeça de jacaré” sempre deixava alguém machucado.

O lado cultural: E todas as vezes que vejo o filme Ritmo Quente, lembro da zoada que ecoou da casa de Letícia, Léo e Eduardo; durante o salto de Baby na dança final. E que numa outra ocasião, muitos nos reunimos para ver Lua de Cristal no Cine Rex. Foi a primeira vez no cinema.Inesquecível!

O lado “sebo nas canelas”: Nunca vi tanta canela seca correndo junta. O imenso, feroz e cheeeeio de dente doberman  de Jacinta tinha se soltado. Era menino no muro, no poste, no meio do mato, tropeçando e se lascando no calçamento. Carreira,meste!E também canelinhas correndo, mas desta vez, atrás de uma bola, geralmente à noite, também na casa da Jacinta. Ah!E muitas vezes o corre-corre era para desviar de muitos adversários, pegar a bandeira e voltar para seu campo. Ao final, todo mundo esbaforido, fedendo, com o sovado e o pescoço só o “pretume” e ainda deslizando mais que quiabo de tanto suor. Porém, a brincadeira garantia um despencar nas camas, depois de um banho, claro!rs

E quem tiver mais lembranças, manda que é bom demais lembrar da infância, principalmente da nossa, que foi tão abençoada!

P.S.:Vocês são a saudade que eu gosto de ter! (Éllen, Edson Filho, Elline, Letícia, Eduardo,Léo,Thabita,Haroldo Júnior, Obed, Laís, Tiaguinho, Marcela, Margary, Gustavinho, Larisse, Jairo, Marcílio, Jacinta, Maninho, Rafael, Tiago, Rodrigo, David, Renata, Roberta, Fernando Filho, Paulo e Amanda(vivíssima no meu coração), Andréa e TODAS as maravilhosas mães de cada um de vocês) Tinham também as vizinhas de rua: Daniele, Leila, as gêmeas Marcela e Renata, Fernanda, Juliana e Lorena.

 

Em uma de nossas performances
 
Meu aniversário com Letícia, Siarla, Andréa,Jacinta e minha prima Paula.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Recadastramento Humanométrico- Parte 1


Começou com uma coisa que dizem ser típico de brasileiro, mas que na verdade é o cúmulo da displicência. Onde já se viu?!Quase perder o segundo prazo para fazer o tal recadastramento biométrico!Eu disse:quase!

Cheguei ao meio-dia e por quase vinte minutos procurei pelo final da fila. Muitos brasileiros. Muitos displicentes. Quando achei o final, que seria o meu começo, faltava pouco para chegar à porta de entrada. Mas antes do atendimento teria de rodar um quarteirão inteiro numa fila inacreditável. 

Depois de duas horas em pé e sem dar um passinho sequer à frente, os mais próximos já estávamos amigos confidentes; sorrindo para não chorar e doando palavras de apoio para quem pensava em desistir. Tão cedo para este tipo de cogitação...

Papo vai, papo vem...Entramos no batido assunto: relacionamento amoroso. Tínhamos criado uma espécie de consultório sentimental a céu aberto com centenas de ouvidos atenciosos.

Luciana carregava nos documentos, 35 anos bem pesados. Não conheceu os pais e foi criada pelos avós maternos; hoje com 92 e 96 anos. Reconciliou-se com o pai de sua pequena Glória Sofia, de um ano e quatro meses. Não queria para a filha o seu mesmo destino. Mas Luciana enfrenta um drama conjugal. Ela é dona do Bar Birinight Sorvetes (é isso mesmo...Sorvetes). O problema está no companheiro dela. Ele é evangélico e quer que Luciana se desfaça do seu meio de vida e de sua casa para ser “do lar” e viver em função dele e da pequena Glória Sofia. Oh, Glória!É só isso o que ele quer...Pelo o que ela disse, esse casamento de papel passado não vai muito longe. “Ele só compra Danone e leite pra menina quando a gente tá brigado. Nãm!”. Isso já era a Luciana enfezada.

Nessa altura, já estávamos ao lado da escada perto da loja Moral. De repente, um cuspe da cabeça da Luciana. Que a gente olha...uma ABENÇOADA! Dizem que agora é pra chamar assim criança atentada. Era Maria Letícia, de seis anos. Até a gente reclamar, a mãe da criança estava no pé da escada achando lindo a menina cuspir na cabeça dos outros. 

Fiquei observando o comportamento de Maria Letícia. Tem os olhar tão doce e atitudes tão grosseiras. Tudo falta de amor, atenção, proteção. A mãe chamava a garota dos nomes mais impróprios para chamar alguém daquela idade. Me deu um aperto no peito. Lelê estava descalça e com os pés pretos de sujo. A sandália rosa de plástico tinha rasgado. O pai tentava colar com superbonder, mas não deu certo. O senhor tentou também colar o sapato dele. Mais uma vez não certo e ele continuou a caminhada com o sapato abrindo e fechando a boca.  Enquanto isso, a mãe de Maria Letícia externava da forma mais covarde a sofrência de sua vida.

Antes de dobrar a primeira esquina chegaram da minha casa, uma cadeira da Bhrama, um guarda-chuva imenso com as cores do arco-íris e um livro de contos do Machado de Assis. Tinha de ter um parente meu vivendo aquilo tudo comigo.

O tempo foi passando. A fila pouco andava e as coisas acontecendo. Um rapaz danou-se a mostrar vídeos de tragédia para os outros. Fechei logo a cara. Detesto vê-los.  Maria Letícia inticava com um e outro. Luciana saía e voltava. Voltava e saía.

Perto das seis da tarde, não estávamos nem na metade do trajeto. Mas toda hora eu ouvia do José de Nazária que Deus é fiel e que tínhamos de ter fé que tudo daria certo. Ele dizia isso a cada início de desânimo dos chegados. 

Thaís estava na minha frente.Tem 20 anos. É casada e tem uma filha de um ano e três meses. Participou ativamente de todas as pautas e emprestou o celular várias vezes pra eu ligar pra casa. Gente fina.

Naturalmente, a cadeira passou de fundo em fundo. Já éramos uma grande família. Todos nos ajudando e nos preocupando uns com os outros. Sofremos juntos cada desistência depois de tantas horas de fila.
A desistência que mais nos doeu foi a do José, que mora em Nazária. O relógio marcava 8:30 da noite. Faltava apenas um quarteirão e meio para conseguirmos. A fome dava sinais claros de sua presença. Um falava de peixe, outro de pizza,cerveja. E José falou no seu baião de dois com ovo frito que comeria em casa se já não tivesse azedado. Perguntei se não tinha alguém pra guardar na geladeira.  Ele baixou os olhos e disse que não tem geladeira. Tentei brincar para descontraí-lo, mas aquilo me doeu tanto...

Ele foi embora às 9 da noite. Meia hora antes de o TER distribuir as senhas que garantiriam o atendimento no dia seguinte. Foi embora, porque o último ônibus para Nazária estava quase passando na avenida Maranhão, para onde ele foi apesar de termos pedido com tanto afinco para que ficasse. Ele não conhece ninguém de Teresina que pudesse dar abrigo por uma noite. Thaís deu a ele cinco reais para ele pegar um mototáxi quando chegasse em Nazária e evitar de ainda ter que caminhar 3km até sua casa. 

Esta tarde pareceu um ano na Universidade da Vida. Me apeguei a todos. Aprendi muito com cada um.
Cheguei em casa querendo. Querendo. Querendo um abraço que pudesse me guardar de tudo, nem que fosse por segundos. Eu quis.

Um abraço especial para Girlany, Iranda, Elaine, Edilson (Siri) e Jéssica e seu esposo, que também fazem parte desta família.